Domingo, no Jornal "O Estado de São Paulo", foi publicada uma notícia com relativo destaque: "Risco de crise alimentar". A notícia explica que, a despeito do mundo estar colhendo este ano sua terceira maior safra da história, há uma forte tendência de desabastecimento e a ONU está tão preocupada com este fato, que deve fazer uma reunião de emergência sobre o tema, na sede da FAO em Roma, no próximo dia 24 de setembro.
Ao ler esta informação, já descrita no primeiro parágrafo do texto, meu primeiro pensamento foi: que estranho...como assim? Se a colheita foi boa, porque o desabastecimento? Ocorre que, a produção, comercialização e consumo de alimentos não é assim tão matemática. Houve sérias intempéries - olha aí as mudanças climáticas realmente acontecendo - seca fortíssima na Rússia, Ucrânia, Casaquistão e outros países vizinhos tradicionais produtores mundiais de trigo. Por outro lado, inundações na Ásia. Temendo desabastecimento em seu próprio território, vários destes países já anunciaram interrupção nas exportações. A Rússia - terceiro maior produtor mundial - deve fechar o escoamento de seus estoques de trigo até o final de 2011. O que fazem os outros países então: fecham seus estoques também. E aí a bola de neve vai aumentando: preços altos, países pobres dependentes de importação sem poder comprar, número de famintos aumentando, instabilidade política, possivelmente guerra, caos... E não adianta a FAO berrar aos quatro ventos que suas estatísticas e dados de que existem 528 milhões de toneladas de grãos estocados, ninguém quer arriscar e abrir seus estoques depois de ter passado por seca ou inundação.
Esta notícia me fez pensar em duas questões importantes: i) as mudanças climáticas serão sentidas em primeiro lugar no estômago, sem dúvida ii) como é frágil a estabilidade política no mundo. Não coincidentemente, estas duas questões estão altamente ligadas: Assim como um ou uma chefe de família não pode ter tranquilidade quando não tem o que colocar na panela para dar comida aos seus filhos, um chefe de estado não pode estar em paz com estoques mundiais desabastecidos.
