Para elevar de forma geral os padrões socioambientais da produção do etanol brasileiro é preciso uma política nacional com regras internas, que estabeleçam critérios socioambientais mínimos para a comercialização de etanol também dentro do país.
Pois de outra forma, corremos sim o risco de que as certificações sejam nichos de mercado e promovam transformações positivas em escalas muito reduzidas frente ao universo de etanol que temos e teremos no Brasil nos próximos anos.
Todavia, é importante destacar que, ainda que reduzidas em escala, as transformações, que já estão em curso nas empresas certificadas, são extremamente positivas e trazem novas referências para o setor como um todo.
A qualidade destas transformações que ocorrem em uma empresa que opta pela certificação decorre de inúmeros fatores, como o próprio padrão de certificação adotado, que pode ser mais ou menos rigoroso, depende da certificadora contratada para fazer as auditorias de certificação, que podem ser mais ou menos rigorosas, depende do comprometimento da empresa em se preparar para se adequar aos padrões de certificação, isto apenas para citar as variáveis mais expressivas.
Além disso, uma empresa certificada não significa uma empresa 100%, significa apenas que ela cumpre com o que é estabelecido na norma em que é certificada. E é importante dizer que as normas, em sua grande maioria, apresentam alguns critérios críticos (segundo os quais o empreendimento não pode ser certificar) e inúmeros critérios não críticos, dentre os quais ela pode ter um porcentagem de não-conformidades. Isto significa que uma empresa certificada pode ter problemas.
Isto porque antes de tudo a certificação é uma ferramenta de melhoria contínua, em que se busca os 100%, e não uma ferramenta de premiação de quem já é 100%.
Por todos estes motivos, é muito comum que se encontrem diferenças grandes entre as empresas certificadas e que estas apresentem, sim, problemas.
Todavia, é extremamente importante que uma empresa certificada tenha a transparência como princípio, pois como se costuma de dizer no mundo das certificações: o problema não é ter problema (isto fora os critérios críticos, logicamente), mas sim, não ter estratégias e comprometimento para solucioná-los.
Desta forma, uma vez que uma empresa certificada seja questionada sobre alguma questão, a melhor postura é a de admiti-la e de compartilhar as estratégias adotadas para solucioná-la.
É fato que a certificação socioambiental no setor sucroalcooleiro é ainda nova e que os sistemas de certificação, bem como as certificadoras e as empresas certificadas precisam evoluir, mas também é fato que estes primeiros sistemas de certificação, certificadoras e estas empresas que estão se arriscando nesta nova empreitada, ainda que com interesses estratégicos, apresentam muitos méritos, pois o setor é resistente a mudanças e o mercado atual não está atrativo para a certificação do etanol e do açúcar.
Como todas as atividades pioneiras, estas iniciativas serão pressionadas e criticadas, mas até em função disto, terão o papel principal no amadurecimento do processo. E quem sabe, sirvam de inspiração para a elaboração de critérios socioambientais mínimos também para o nosso consumo (enorme) interno, contribuindo, então, para a evolução do setor como um todo!
Marina Souza Dias Guyot
