Para auxiliá-las nesta empreitada, existem hoje no mundo todo – também no Brasil, aos montes, e de ótima qualidade - inúmeros códigos de conduta, padrões de certificação, leis e outras normativas que servem de referência conceitual e que esclarecem indubitavelmente o que é certo ou errado, bom ou ruim, aceitável ou não aceitável que uma empresa faça dentro de suas condutas produtivas, administrativas e comerciais.
Por que então, com todo este aparato conceitual e este estado de consciência "sustentável" entre consumidores, empresas, mídia e governo, ainda nos deparamos com notícias de absurdos tão primários relacionados às questões socioambientais, envolvendo empresas supostamente responsáveis como Zara, Pernambucanas ou Pão de Açúcar, Walmart e Carrefour?
Porque as empresas, assim como as pessoas, costumam arrumar a casa começando naturalmente pelo mais fácil, que é tirar a bagunça que está à vista de todos, organizar o que está ao alcance da mão, mas negligenciam arrumar o porão, que está longe, que nem se sabe mais o que tem dentro, e que custa mais tempo, dinheiro, paciência e transparência de todos, e principalmente: um nível de controle diferenciado sobre sua própria "casa".
Explico-me: as empresas, na esmagadora maioria das vezes, restringem suas ações socioambientais ao seu 'núcleo duro', responsabilizando-se pelos seus trabalhadores diretos, pelo ambiente em que sua infra-estrutura está instalada. Assim, conseguem realmente um nível diferenciado de condições de trabalho, de satisfação dos trabalhadores, e de performance em relação aos indicadores ambientais (consumo de energia, água, resíduos, uso de recursos naturais etc.) mas não tem preocupação ou ferramental operativo para sequer conhecer os demais elos de sua cadeia produtiva, quanto mais influenciar em alguma mudança de desempenho socioambiental nos mesmos, o que em casos extremos, acaba por produzir as notícias alarmantes que estamos começando a nos acostumar a ouvir.
Um exemplo no setor sucroenergético: no estado de São Paulo, o índice de mecanização da colheita de cana-de-açúcar sem queimada para retirada da palha em áreas próprias e arrendadas das usinas – ou seja, que tem gerenciamento direto da empresa – gira em torno de 80% a 90%. Já a média geral do estado, este ano está em 55%, ou seja: quem contribui para esta diferença tão expressiva na eliminação das queimadas em áreas de cana? Os fornecedores das usinas, que não dispõe de recursos – financeiros, tecnológicos, gerenciais – como as empresas compradoras, e tampouco são auxiliados por elas para um possível upgrade na mecanização de sua colheita.
Qual a solução? Arregaçar as mangas, e arrumar o porão! Mas para isso, é preciso que as empresas primeiro conheçam sua "casa" por inteiro: rastreiem a origem de sua matéria-prima, estabeleçam relações mais diretas e intensas com seus fornecedores, e posteriormente, se armem de ferramentas operacionais que permitam medir, avaliar e gerir suas cadeias de suprimentos de forma a atingir, integralmente, os níveis de desempenho socioambientais desejados, se tornando realmente uma empresa sustentável, para todos e para si.
