Arrumando o porão: reflexões sobre o controle da cadeia de suprimentos.
Muito se fala sobre responsabilidade do consumidor, consumo responsável, cidadania e mobilização social em torno dos temas que regem a produção e o comércio. Pesquisas indicam tendência sempre crescente dos consumidores valorizarem – ao menos na preferência de escolha, apesar de nem sempre quererem pagar mais por isso – produtos que tenham uma garantia de diferenciação em relação às questões ambientais ou sociais. Isso demonstra, de alguma forma, que as pessoas cada vez mais se importam com aquilo que está em um raio além dos dois metros de seu próprio umbigo. Talvez motivadas pelo estado de "pré-caos" climático, ambiental e social (vide Ocuppy Wall Street que se espalha pelo mundo) que nos encontramos no planeta, ou por uma simples explicação: hoje estamos mais bem informados do que antes, e informação é poder, poder de escolha entre um produto "bom" ou outro "ruim", inclusive.
Risco de crise alimentar no mundo
Ao ler esta informação, já descrita no primeiro parágrafo do texto, meu primeiro pensamento foi: que estranho...como assim? Se a colheita foi boa, porque o desabastecimento? Ocorre que, a produção, comercialização e consumo de alimentos não é assim tão matemática. Houve sérias intempéries - olha aí as mudanças climáticas realmente acontecendo - seca fortíssima na Rússia, Ucrânia, Casaquistão e outros países vizinhos tradicionais produtores mundiais de trigo. Por outro lado, inundações na Ásia. Temendo desabastecimento em seu próprio território, vários destes países já anunciaram interrupção nas exportações. A Rússia - terceiro maior produtor mundial - deve fechar o escoamento de seus estoques de trigo até o final de 2011. O que fazem os outros países então: fecham seus estoques também. E aí a bola de neve vai aumentando: preços altos, países pobres dependentes de importação sem poder comprar, número de famintos aumentando, instabilidade política, possivelmente guerra, caos... E não adianta a FAO berrar aos quatro ventos que suas estatísticas e dados de que existem 528 milhões de toneladas de grãos estocados, ninguém quer arriscar e abrir seus estoques depois de ter passado por seca ou inundação.
Esta notícia me fez pensar em duas questões importantes: i) as mudanças climáticas serão sentidas em primeiro lugar no estômago, sem dúvida ii) como é frágil a estabilidade política no mundo. Não coincidentemente, estas duas questões estão altamente ligadas: Assim como um ou uma chefe de família não pode ter tranquilidade quando não tem o que colocar na panela para dar comida aos seus filhos, um chefe de estado não pode estar em paz com estoques mundiais desabastecidos.
Rastreabilidade da carne bovina para salvar a Amazônia. O que uma coisa tem a ver com a outra?

O jornal Folha de São Paulo de 15 de abril de 2009 publicou no caderno “Ciência” a notícia de que as áreas desmatadas na Amazônia nos últimos dois anos e nove meses apontam a pecuária como a principal forma de uso do solo após a derrubada da floresta. A área monitorada nos três estados que mais desmatam – Mato Grosso, Pará e Rondônia - equivale a pouco mais que o tamanho da cidade de São Paulo, e identificou que de 620 áreas de desmatamento recente, apenas 12 contém plantações de soja e 203 são ocupadas com pastagens, ou seja, mais de 1/3 do total das áreas. A reportagem também informa que a provável razão para a pecuária ser a principal causa de desmatamento e não a soja, é que a indústria da soja se organizou há poucos anos atrás e estabeleceu uma moratória para a compra – as empresas que representam a compra de 90% da soja no país se comprometeram a não mais comprar de áreas desmatadas após 24 de julho de 2006. Os frigoríficos e empresas ligadas ao mercado de carne não tem nenhuma iniciativa parecida, e a grande maioria delas não faz análise de rastreabilidade do produto. A despeito desta realidade, o governo federal anunciou na semana passada que vai socorrer o setor com um pacote anti-crise, sem nenhuma exigência de compromisso futuro com as questões ambientais.
